Restomod italiano revive o espírito do Lancia 037 com 505 cv, tração traseira e alma de rali
O automobilismo dos anos 1980 foi uma era em que coragem e loucura dividiam a mesma curva. O auge desse espírito veio com o Grupo B, categoria de rali que misturava potência absurda, riscos colossais e uma aura quase mítica. Foi ali que nasceu o Lancia Rally 037, o último carro com tração apenas traseira a conquistar o título mundial, em 1983, nas mãos de Walter Röhrl. Quatro décadas depois, a pequena Kimera Automobili decidiu que essa história merecia uma segunda chance — e fez o passado rugir de novo.

O resultado é o Kimera EVO37, um restomod que combina nostalgia com engenharia moderna. Longe de ser uma simples réplica, o EVO37 é uma reinterpretação minuciosa de um ícone. Cada detalhe foi repensado: da estrutura ao motor, da aerodinâmica à ergonomia. Tudo foi criado para preservar a alma do 037 original, mas com o refinamento que só o tempo e a tecnologia podem oferecer.

É o tipo de carro que não apenas homenageia o passado, mas o traz de volta à vida. E, como todo bom carro italiano, ele não busca consenso — busca emoção. O EVO37 é a resposta da Kimera a uma pergunta que todo entusiasta já fez ao menos uma vez: e se os carros dos anos 80 voltassem, com a força de hoje?
O mito renasce
A Kimera Automobili é um ateliê italiano fundado pelo ex-piloto de rali Luca Betti. Sua missão é clara: reconstruir, peça por peça, a glória do Lancia 037. O projeto do EVO37 contou com o envolvimento de engenheiros e técnicos que participaram do desenvolvimento do carro original, garantindo fidelidade técnica e emocional ao modelo que inspirou gerações.

Produzido em uma tiragem limitadíssima de 37 unidades, o EVO37 é uma obra artesanal. Cada exemplar é montado à mão, com atenção quase obsessiva aos detalhes. E o resultado vai muito além da aparência: este é um carro que foi feito para ser dirigido, não apenas admirado.

Raízes no Grupo B
Em 1983, o Lancia 037 desafiou a lógica. Enquanto seus rivais já experimentavam a tração integral, a marca italiana insistia na tração traseira — e venceu. Era a última vez que um carro “clássico” conquistava o título mundial de rali. O EVO37 revive exatamente esse espírito: o da resistência à modernidade vazia, da pureza mecânica e da conexão direta entre piloto e máquina.

A carroceria do novo modelo preserva as proporções originais, mas agora é feita em fibra de carbono. O chassi, que na época era derivado do Lancia Beta Montecarlo, foi reforçado e ajustado para suportar níveis de desempenho que o original nunca imaginou.
Mecânica refinada, alma bruta
O coração do EVO37 é um motor quatro-cilindros 2.1 de origem Lancia, modernizado e preparado pela Italtecnica. Ele utiliza dois sistemas de sobrealimentação — um compressor mecânico tipo Roots e um turbocompressor — trabalhando em harmonia. O resultado são 505 cv e 55 kgfm de torque, enviados para as rodas traseiras através de um câmbio manual de seis marchas.

O motor fica montado na posição central-traseira, como no original, e o conjunto mecânico é completado por uma embreagem dupla, diferencial autoblocante e um sistema de cárter seco, solução típica de carros de competição. A suspensão é do tipo duplo braço, com amortecedores ajustáveis Öhlins, enquanto os freios são da Brembo, com discos ventilados e pinças de quatro pistões.
O peso é de apenas 1.100 kg — praticamente o mesmo do carro dos anos 80 — o que garante uma relação peso/potência de supercarro. O comportamento é descrito por quem o guiou como visceral, direto e preciso. Não há modos de condução, nem eletrônica salvadora: o controle é todo do piloto.
Por fora, pura nostalgia
Visualmente, o EVO37 é uma carta de amor ao design italiano. O capô curto, os faróis duplos embutidos, a asa traseira e as entradas de ar nas laterais remetem imediatamente ao carro que dominou os estágios de terra da década de 80. Mas os detalhes revelam o salto no tempo: iluminação em LED, acabamentos em alumínio escovado e rodas de 18 polegadas com pneus modernos.
O interior mistura passado e presente com o mesmo equilíbrio. Bancos esportivos revestidos em couro e Alcantara dividem espaço com instrumentos analógicos redesenhados e comandos digitais discretos. Tudo parece feito sob medida, como uma peça de alfaiataria que combina tradição e tecnologia.
Dirigir um mito
Quem teve a oportunidade de guiar o Kimera EVO37 conta que é uma experiência sensorial. O ronco metálico do motor ressoa logo atrás do banco, o câmbio tem engates curtos e firmes, e a direção sem assistência transmite cada grão do asfalto. Não há filtros — apenas o piloto, a máquina e a estrada.
É o tipo de carro que exige respeito: tração traseira, potência bruta e equilíbrio fino. Mas, para quem sabe o que está fazendo, o EVO37 recompensa com uma das experiências mais puras que o mundo automotivo pode oferecer hoje. Ele não é um carro do passado recriado; é o passado evoluído, com o DNA de quem nasceu para vencer.
Ficha técnica — Kimera EVO37
- Motor: 4 cilindros, 2.150 cm³, turbo + compressor mecânico
- Potência: 505 cv a 7.500 rpm
- Torque: 55 kgfm
- Câmbio: manual de 6 marchas
- Tração: traseira
- Peso: 1.100 kg
- 0–100 km/h: cerca de 3,5 s (estimado)
- Velocidade máxima: acima de 280 km/h
- Preço: cerca de € 600.000
- Produção: 37 unidades





